DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM O MINHO NO CORAÇÃO

“Uma profunda contradição habita a identidade europeia, que nos leva a ser vítimas e carrascos da nossa própria Humanidade”

 

Realizou-se no âmbito do Festival Civitas a conferência “Ameaças à Identidade: o caso da União Europeia”, um evento organizado pela HeForShe-Universidade do Minho numa colaboração com a Associação de Estudantes de Direito da UMinho. A iniciativa contou com intervenções da Eurodeputada e também Professora Associada, Isabel Estrada Carvalhais, do Professor Catedrático, Luís Lobo-Fernandes, ambos da Universidade do Minho e do fundador da Shifter, João Gabriel Ribeiro.

 

No mesmo dia internacional que assinalou a Memória pelas Vítimas do Holocausto, Isabel Carvalhais enfatizou que “uma profunda contradição habita a identidade europeia, que nos leva a ser vítimas e carrascos da nossa própria Humanidade”. E por isso sublinhou a importância de recordarmos a História e de preservarmos os testemunhos dos sobreviventes do Holocausto, cada vez em menor número a cada ano que passa, pois mais do que a História – por vezes sujeita a revisionismos e negacionismos, como alertou – é no testemunho vivo de quem sobreviveu que vemos com toda a crueza ‘a luz e as trevas que nunca deixaram nem deixam de habitar em nós’.

 

Recordando três das principais obras de Primo Levi, químico italiano que sobreviveu entre Fevereiro de 1944 e janeiro de 1945, ao campo de concentração de Auschwitz com pouco mais de vinte anos, a eurodeputada e também professora recordou que o grande perigo no nosso quotidiano não está tanto nos extremos, na divisão clara entre o Bem e o Mal, entre liberdade e encarceramento, entre democracia e autocracia; está antes nas zonas cinzentas de que Levi falava. No entender de Isabel Carvalhais, “as zonas cinzentas são aquelas em que se alberga a indiferença de cada um, em que vai ficando o nosso silêncio conivente, a resignação, o colaboracionismo pragmático que nos faz pensar na sobrevivência e que é particularmente evidente nestes tempos de crise”. Isabel Carvalhais alertou ainda que as zonas cinzentas são as zonas da banalização do mal, onde vamos compactuando com os discursos extremistas, onde nos vamos habituando às suas propostas e onde eventualmente acabamos até a dizer ‘se calhar eles têm uma certa razão’.

 

A eurodeputada falou ainda do que chama de voluntarismo ansioso na busca por explicações sociológicas para a emergência de partidos de extrema direita na Europa. Por um lado, parece-lhe compreensível e necessário que se faça essa análise, pois importa conhecer as causas dos fenómenos. Mas, por outro, teme que esse exercício seja confundido com um certo justificar da raiva e, por conseguinte, um legitimar dos partidos que se alimentam dessa raiva social. E por isso alerta que não basta identificar as raízes da raiva, do descontentamento, e do desamparo que levam tantos cidadãos a sancionar os programas eleitorais desses partidos. É preciso destruí-las e tal só se faz com políticas concretas e consequentes, não apenas com retórica ‘porque o sentimento de injustiça que anima a raiva e leva as pessoas a seguirem esses partidos, não se elimina com palavras’.

 

Isabel Carvalhais considera por isso que, sendo a União Europeia um projeto de paz, precisa, todavia, de se mostrar muito mais forte enquanto projeto de verdadeira inclusão social, de justiça e de solidariedade. “O que tem falhado não é o Bem (a Democracia, a Liberdade, a Justiça), mas o pouco que ainda fizemos com ele” concluiu.

 

Sob o mote do “Dia Escolar da Não Violência e da Paz”, o Festival Civitas organizado pelos alunos da EDUM, tem momentos ao longo de toda a semana, com temas em debate, como o feminismo, ameaças à identidade na UE e a importância do ativismo.