DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM CORAÇÃO

Turquia e Síria – é preciso manter acesa a chama da esperança

Vive-se hoje na Turquia e na Síria uma situação humanitária gritante em resultado do sismo e consequentes réplicas do passado dia 06 de fevereiro. O sismo inicial com uma magnitude de 7.8 na escala de Richter, produziu uma tragédia só ainda superada pelo terramoto do Haiti de janeiro de 2010.
No terreno, chegam-nos relatos emocionados e imagens pungentes de tristeza e dor, mas também de autênticos milagres, alguns deles concretizados pelas equipas portuguesas de resgate e salvamento que integram forças da nossa Proteção Civil, da GNR, do INEM, dos Bombeiros. Verdadeiros heróis, estes seres humanos, mas também os seus cães de resgate, que têm conseguido trazer alguma esperança onde apenas o caos parece imperar.

 

Esta semana, as Nações Unidas vieram alertar que pelo menos 870 000 pessoas estão urgentemente necessitadas de refeições quentes, tanto na Turquia como na Síria. Entretanto, todas as projeções iniciais de mortos foram já largamente ultrapassadas. Só na Turquia, as vítimas mortais ascendem a mais de 40 mil e na Síria, em especial na zona Oeste e Norte mais afetada, zona para mais abandonada nos últimos 12 anos de guerra civil pelo regime ditatorial de Damasco, a contabilidade nem sequer pode ser vista como fiável. Os números irão certamente subir, seja porque só na Turquia há cerca de 80 mil hospitalizados, muitos em situação grave, seja porque há um número ainda indeterminado de desaparecidos. Talvez até nunca se venha a saber quantos a morte reclamou nesta catástrofe. A tudo isto, so- mam-se os perigos de uma crise de saúde pública de dimensões gigantescas. O surto de cólera alastra na Síria, mas também no Líbano, o vizinho martirizado que acolhe há anos mais de milhão e meio de refugiados sírios e cuja condição económica se tem degradado a olhos vistos. Faço nota aqui (porque a nossa memória tende a ser incrivelmente curta e por isso já ninguém fala desta questão) que foi há menos de 3 anos, em plena pandemia, que ocorreu a explosão de silos de nitrato de amónio no porto de Beirute, fragilizando ainda mais uma sociedade dilacerada.

 

 

Finalmente, a pandemia do COVID19 que na Europa já deixou de ser uma preocupação, ainda graça na região afetada pelo sismo e tenderá a agravar-se, como facilmente se imagina, num contexto em que as infraestruturas médicas e hospitalares e os recursos humanos na área da saúde estão sob uma pressão indiscritível na Turquia e na Síria.

 

E se na Turquia, onde apesar de tudo há uma economia que funciona e há um relativo desenvolvimento, o cenário é dramático, do lado sírio, o que existia antes do sismo, em particular na zona que se opõe ao ditador Bashar al-Assad, era já em si uma catástrofe humanitária, com deslocados internos abandonados à sua sorte, a viver em prédios destruídos por mais de uma década de guerra. Com o sismo, veio a destruição em cima de destruição.

 

É neste cenário dantesco que importa não perder o norte sobre aquilo que nos deve manter unidos: a humanidade! E por isso urge que a vontade política se manifeste, como tem acontecido, mas sobretudo que se intensifique. Considero neste contexto que é urgente uma ativação imediata da Diretiva de Proteção Temporária para os refugiados sírios, tal como foi feito, e bem, para os refugiados vindos da Ucrânia em fevereiro de 2022. Recordo que a Diretiva criada em 2001, e que nunca tinha sido ativada antes da situação dos refugiados da Ucrânia, existe para isso mesmo: para ser ativada em emergentes situações humanitárias como claramente é esta a que hoje assistimos.

 

 

Defendo igualmente que haja uma imediata suspensão temporária por razões humanitárias de sanções da UE à Síria, acompanhada de uma avaliação minuciosa do levantamento das sanções específicas que possam de facto prejudicar as operações humanitárias das organizações que desejam fornecer ajuda e resgate.
A ajuda é precisa e é precisa já! Estamos a falar de milhões de pessoas em completo caos, sem água potável, sem eletricidade para se aquecerem, sem casa, sem acesso a hospitais, com a vida interrompida, num completo limbo. O anúncio já feito pela Comissão Europeia de que vai realizar uma conferência de doadores europeus e internacionais para ajuda aos dois países, Turquia e Síria, parece-me importante e é de saudar.
Mas precisamos de ver mais atos concretos e, até agora, os atos verdadeiramente concretos que tenho visto são os daqueles que, sob risco da própria vida, têm trazido alguma esperança onde só a noite sem fim parece existir.