DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM O MINHO NO CORAÇÃO

Porque (não) falo de Aylan

A folha virtual aberta no ecrã do computador apresenta um branco que não é menos penoso nem menos frustrante que o branco níveo de uma folha de papel. A possibilidade de lhe diminuir a intensidade do brilho torna-a momentaneamente mais cinzenta, mas não resolve o drama: devo escrever?

 

Os temas sucedem-se numa vertigem desenfreada a cada dia que passa e sobre todos há incontáveis textos de opinião, qual deles o mais acutilante e incisivo, o mais profundo e bem escrito. Creio que há todo um mundo, paralelo ao mundo concreto, que é simplesmente feito de opiniões. É um mundo-avatar em que os fazedores de opinião são como personagens que sofrem danos e ganham vidas, tal como na linguagem dos jogos virtuais. E tal como nos jogos, há personagens de cartas altas (os que conquistam grande visibilidade mediática e opinam em abundância) e os personagens de cartas baixas (os anónimos que vão dizendo coisas no mundo modesto, mas não menos agressivo, das redes sociais – às vezes, com sorte, ganham vidas suficientes e passam para outro patamar do jogo).

 

Volto ao ponto de partida. Devo escrever? O que escrever, então, de modo a que o texto de opinião não seja um mero exercício de vaidade intelectual, pelo qual se procura escrever melhor para parecer que se pensa melhor? A minha pergunta pode aqui ser travada pelo alerta de que um pensamento assim pode acabar por confundir-se com um cinismo pessimista que desconsidera o facto de a produção de opinião ser, em si mesma, um exercício de cidadania. E, como ato de liberdade de pensamento que é, não pode estar sempre refém da necessidade de trazer consigo algo de substancialmente diferente, um dado novo, um conhecimento, de algo, enfim, que justifique a sua existência para lá do simples facto de ser uma opinião.

 

Concordo. Mas o facto de concordar não faz desaparecer o que me perturba. E o que me perturba é a força desta espécie de mundo paralelo em que a percepção não é apenas lente, nem a opinião apenas a tradução daquilo que a lente vê, mas em que ambos acabam por se tornar numa realidade em si mesma, que se sobrepõe à própria realidade palpável.

 

Procurando concretizar um pouco melhor: quantas vezes damos por nós a seguir um determinado assunto apenas pela leitura das opiniões que sobre ele se escrevem, e pela leitura das opiniões já feitas sobre essas primeiras opiniões? No fundo, que sabemos sobre esse assunto? Que pensamos nós sobre ele que seja realmente nosso? Numa espécie de ‘deixa’ pós-moderna, alguém contudo poderia atirar com a pergunta retórica “mas o que é a realidade senão o que dela julgamos perceber?”

 

Não tendo competências filosóficas para argumentar com um pós-modernista, e reconhecendo que a opinião é também ela uma forma de ‘tatear’ o mundo exterior tão válida como qualquer outra, creio todavia que há um limite para a dependência que possamos ter relativamente às opiniões como meio de perceber (e sobretudo, sublinho, de transformar o mundo), porque a verdade é que esse mundo concreto existe e existe para lá daquilo que julgamos saber sobre ele e sobre o qual tanto opinamos.

 

Vejamos, a criança que passa fome ou a mulher violentada, o homem sem emprego ou o idoso esquecido, têm uma fome, uma dor, uma angústia, um abandono que são concretos, que são seus, da sua carne e do seu espírito, que existem para lá dos artigos de opinião que eu e outros possamos escrever sobre eles. Não são os meus artigos nem os de ninguém que lhes dão substância e existência. Podem quando muito dar-lhes visibilidade.

 

E aí, entra a última parte da minha reflexão: Se escrevo, escrevo para quê? Para dizer o quê? É para que a visibilidade dada resulte em ações transformativas que ajudem a mudar a condição real de sofrimento, de injustiça, de infelicidade do Outro, ou é apenas para alimentar a presença dessas realidades no mundo-avatar das opiniões? E foi com estas inquietações que dei por mim a pensar se deveria ou não escrever sobre Aylan, a criança síria que há cinco anos chegou morta a uma praia turca.

 

E chego à conclusão, ao cabo desta página que fui ‘borratando’ de caracteres, de que não devo escrever. Não tenho legitimidade para o fazer. A minha página sobre Aylan tem de ficar em branco, porque a realidade que ele foi e é merece muito mais do que mais uma opinião. Mais um a achar que pelo facto de se lembrar que Aylan encheu de estrelas a espuma do mar que o cobria, há cinco anos numa praia turca, suplanta o facto de nada ter feito nem antes, nem depois desse dia. Seria mais um a querer fazer justiça a Aylan apenas no mundo-avatar das opiniões bonitas, mas politicamente inconsequentes.