DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM CORAÇÃO

O Dia da Europa e a importância das boas escolhas

Porque é que a 9 de maio não celebramos a capitulação da Alemanha nazi perante a chegada das tropas do então Exército soviético, mas celebramos sim o Dia da Europa?

 

 

Porque há 73 anos fazíamos uma escolha. Não foi certamente percebida de modo imediato e consciente enquanto escolha coletiva. E por isso quando digo ‘fazíamos’ refiro-me a um todo que viria a ser congregado e construído ao longo destes já 73 anos, um todo do qual, nós portugueses, fazemos também parte.

 

 

Dizia eu que fazíamos uma escolha, uma escolha simbolicamente marcada pela declaração de Robert Schuman, ao tempo ministro dos negócios estrangeiros francês e um dos pais fundadores do projeto europeu. E que escolha foi essa? Foi a escolha pela paz sobre a guerra, pelo progresso sobre a destruição, pela solidariedade entre povos sobre os egoísmos ultranacionalistas, pela reconciliação entre estados sobre a vingança e a humilhação das nações, pela democracia sobre todos os totalitarismos.

 

 

Escolhíamos respeitar o passado, mas vivendo no e para o futuro. Por isso é que ainda hoje falamos em projeto europeu, porque esta é uma obra inacabada, que se transforma pelas mãos de líderes, de governos, de cidadãos e cidadãs, ano após ano, década após década.

 

 

A Europa de hoje não é a Europa de 1950, nem a Europa da Guerra Fria, da crise petrolífera de 1973, a Europa dos tempos do consenso de Washington e do Thatcherismo; não é a Europa da queda do muro de Berlim, do fim da União Soviética, do massacre da Praça de Tiananmen. Já não é a Europa do Tratado de Amesterdão, do pós-11 de setembro, dos atentados terroristas de Madrid, de Londres, Nice, Bruxelas, Estrasburgo… Não é já a Europa do tempo da Primavera Árabe, da crise das dívidas soberanas, dos protestos a que assisti na praça Syntagma em Atenas, em 2010, da chegada de milhares de refugiados sírios em 2014-15. Já não é a Europa dos 28. E daqui a algum tempo (não esqueçamos que o tempo das relações internacionais é hoje vertiginoso, alucinante) já não será a Europa do pós-Covid, nem a Europa da guerra russa contra a Ucrânia. Será a Europa de um outro tempo. Será mesmo uma outra Europa. Será a Europa da paz e da independência na Ucrânia, a Europa de novos alargamentos, de novos desenhos institucionais, de novas dinâmicas internacionais que não conseguimos plenamente antecipar (mas que podemos e devemos imaginar). Será também uma Europa que vai certamente estar num mundo em que veremos o ressurgir de muitos conflitos que permanecem sem resposta, o mundo dos enclaves, dos povos esquecidos, dos migrantes famintos, dos muros e das indiferenças que matam.

 

 

Mas é neste constante devir que melhor apreciamos e compreendemos a singularidade do projeto europeu: este ter de antecipar passos, de conceber estratégias, de fazer escolhas, sabendo que ao fazer escolhas se faz também muitas vezes um grande salto de fé. Foi assim há 73 anos. Quando Schumann fez a declaração anunciando a criação de uma comunidade comum do carvão e do aço, a mesma havia sido preparada em grande secretismo. A ideia, reza a história, era criar um efeito surpresa e simultaneamente galvanizador junto da sociedade europeia. Schumann queria provocar um sobressalto e conseguiu! Schuman não tinha como antecipar todo o alcance histórico daquela escolha, mas intuiu-o, pressentiu-o e por isso insuflou-lhe o sopro da vida. Não estava só, é claro, e já sabemos que estas narrativas excessivamente centradas numa ou noutra personagem acabam sempre por gerar injustiça para com outras mais. Mas o propósito aqui é sublinhar duas ideias. A primeira ideia prende-se com o significado que o dia 9 de maio de 1950 transporta ao longo de mais de 7 décadas – o de ter sido o dia de uma escolha fundacional para toda a Europa. Era feita a escolha pela Europa da união, da paz, da liberdade, da prosperidade.

 

 

A segunda ideia prende-se com o facto de muitas das escolhas angulares emergirem em períodos de crise. Todas as grandes escolhas têm aliás quase sempre uma dimensão reativa. Mas há algo que as distingue das meras reações à espuma dos dias: ambição, coragem e visão. As três são indissociáveis nas escolhas que acabam por ser reconhecidas posteriormente como fundacionais e angulares. Ambição política sem coragem política, é mera retórica que no mínimo cai no esquecimento e não chega a entrar nas páginas dos livros, e no máximo leva a irreparáveis perdas de oportunidade transformativa na vida dos povos. Por sua vez, coragem sem visão, sem uma leitura atenta e multidisciplinar das circunstâncias de cada tempo, de cada sociedade, e sem a capacidade de projetar e antever cenários, pode ser no mínimo uma vaidade política inconsequente e no máximo um desastre que compromete o futuro de gerações. Como se pode imaginar, a presença simultânea da tríade ambição, coragem e visão, nas decisões políticas, não é um dado adquirido.

 

 

E também aqui reside a beleza do projeto europeu, já que ele exige a todos os decisores políticos, em todos os níveis de governança, e em todos os tempos da sua atuação pública, uma busca constante e laboriosa pelas melhores escolhas possíveis para as sucessivas crises e os muitos desafios que se nos colocam num mundo de grandes turbulências e interdependências. Por isso é também tão importante o papel dos nossos cidadãos na hora de escolher os seus representantes em instituições como o Parlamento Europeu, não podendo a escolha certa recair, parece-me óbvio, sobre forças políticas que na Europa lutam pelo fim da Europa. Não podemos escolher para nos representar na Europa quem se aproveita da liberdade e da democracia para ter palco e proclamar de novo a Europa da divisão, dos nacionalismos e das rivalidades que no passado nos fizeram descer aos infernos.

 

 

Como em tudo na vida, as boas escolhas dão bons frutos, mas as más escolhas, pagam-se caro. Eu acredito que o projeto europeu merece sempre a nossa melhor escolha e confio na nossa maturidade cidadã e democrática para fazer a escolha certa, a escolha pela Europa progressista e humanista