DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM O MINHO NO CORAÇÃO

No brinde a mais um ano, o desejo de recomeço e transformação de cada um e de todos

Artigo de opinião, in Correio do Minho, 06 janeiro’22

 

É quase inevitável que na viragem de mais um ano nos encontremos a renovar os votos de um ano novo próspero e feliz, mesmo se a nossa noção de prosperidade e de felicidade se altere ao longo do tempo e nos questionemos sobre o sentido que cada um lhe atribui. De um ponto de vista antropológico, sabemos que estes rituais de passagem fazem todo o sentido. Necessitamos destas quebras imaginárias na linha (também ela imaginária) do tempo, e de voltar a acreditar na possibilidade do recomeço. É como se na passagem de um segundo ao outro, o maior ato de magia do universo pudesse enfim acontecer: o renascer. Quando era criança, cerrava os olhos e os punhos com força e desejava com igual intensidade, que ao abrir os olhos, o brinquedo tão esperado aparecesse diante de mim. E se não aparecia, a explicação encontrava-a em mim mesma, no que eu considerava ter sido a minha falta de convicção na invocação da magia. E assim, porque o defeito não estava no Universo, mas em mim, era a mim mesma que cabia continuar a aperfeiçoar o ‘acreditar’. No fundo, aquele acreditar numa magia que apenas dependia de mim, era a versão inocente do acreditar na possibilidade de controlo sobre as circunstâncias da vida. Ora, como crescer depressa nos mostra que esse controlo é a maior das ficções, depressa também se acaba o acreditar nessa magia pura que apenas de nós depende. A não ser na passagem desse segundo para um outro, que marca o início não apenas de uma nova hora, de um novo dia, de um novo mês, mas de um novo ano! É aí, nesse brevíssimo instante, que voltamos à inocência primordial do acreditar no recomeço. De resto, não há unidade de tempo mais importante para nós do que o ano. Ano novo, vida nova, assim diz o provérbio. Um ano é suficientemente amplo para permitir acreditar em mudanças concretas que o ritmo dos dias que se repetem e das semanas e meses que voam, não permite conceber, mas suficientemente comedido para não termos de pensar em todo o peso de uma década. E assim, neste discorrer de considerandos pouco úteis ou profundos sobre a passagem do tempo, dou por mim a desejar, uma vez mais, um ano próspero, saudável, e feliz, para todos, mas sobretudo para os que não acreditam nesta derradeira magia do ‘acreditar’, seja porque do universo sempre tiveram tudo, seja porque dele nunca tiveram nada, duas condições nas quais tragicamente se anula a capacidade do sujeito ver a sua própria força transformadora.
O que desejamos quase sempre é de natureza intangível (felicidade) ou tangível, mas suficientemente vaga (prosperidade) para garantir que se adapta a múltiplas espectativas. E tendemos a desejar mais para o plano individual, do que para o coletivo, embora nos desejos também caibam a ‘paz para o mundo’, ou a versão mais holística do ‘mundo melhor’. Desejos de dimensão coletiva que impliquem, por exemplo, mudanças de mentalidade em questões de género, ou mudanças na cultura política em questões tão determinantes como a participação cívica, é coisa que nunca nos passa pela cabeça no momento de brindar ao novo ano. Compreende-se, porque no fundo o que anima o brinde da passagem de ano é a crença, mesmo se breve, na capacidade individual de controlar e transformar a sua vida, de mudar os seus hábitos, de determinar as suas opções. Ninguém brinda a pensar na capacidade coletiva da mudança. Mas, brindes à parte, a verdade é que todos (indivíduos, empresas, instituições) temos em nós a capacidade coletiva da mudança, por modesto e pequeno que o nosso papel nos pareça. O que me leva a pensar sobre o papel que cada um tem (pode, deve ter!) no desenvolvimento de uma cidadania mais informada, ativa e participativa. Afinal, todos somos responsáveis pelo nosso crescimento como seres políticos, comprometidos com a vida em sociedade, com as decisões coletivas. E o papel de cada um inclui, naturalmente, o papel dos Media. Interrogo-me por isso (sem pretensão de originalidade), sobre o papel, em particular dos canais televisivos, no aumento do interesse e da participação política dos cidadãos na escolha dos seus governantes e representantes, ao optar pela realização de debates entre candidatos às eleições legislativas de 30 de janeiro, que duram aproximadamente o mesmo que o episódio de uma qualquer sitcom (estou a pensar nos 20 a 25 minutos de um episódio do Brooklyn 99).

Debates em que cada candidato tem cerca de 12 minutos para apresentar a sua visão de governação para o país, e que analistas de serviço dissecam exaustivamente logo de seguida, em quase tanto tempo quanto o da duração dos próprios debates. Pelo meio, ouvem-se umas ‘tiradas’ sobre penas perpétuas, imigrantes, criminalidade. Mas antes que os menos (ou talvez deva dizer, os mais) atentos tenham tempo de perguntar ‘será possível? eu ouvi mesmo isto?’ já se amontoam as análises sobre o que ‘realmente’ terá sido dito, sobre as intenções de quem o disse, e até, pasme-se, desmentidos sobre o que foi efetivamente dito e não dito. Houvesse pelo menos a decência da coragem para assumir o que se disse, e o que se consentiu que se dissesse sem que se declarasse efetivo repúdio.

E depois fecha-se a loja, que o tempo urge para dar seguimento aos reality shows, aos espetáculos de talentos, às mascaradas e às discussões futebolísticas (ou nem tanto) protagonizadas por indivíduos de cara suada e ar apoplético. É um exercício de anestesia coletiva que não se aguenta. E tinha eu ainda o sonho (ah, a eterna criança em mim) de que nos debates houvesse algum tempo para falar da Europa, do espaço de onde afinal emanam muitas das forças motrizes do nosso próprio movimento coletivo.
Dir-me-ão que mais vale ter estes debates do que nada. Concedo. Mas entristece-me ver que algo tão determinante como o futuro do país possa ser discutido desta maneira. Também se pode argumentar que há outros meios para lá da televisão, que ajudam as pessoas na formação das suas opiniões. Certo, mas não se pode negar o impacto que este meio em particular ainda tem na formação da nossa opinião pública, um impacto só rivalizado não pelos jornais (quem nos dera), nem pelos programas de rádio (antes fosse), mas pelas redes sociais, o que deveria preocupar-nos, e muito.

Enfim, sem querer que o travo amargo tome conta da minha primeira crónica do ano, termino com votos de que para além de um ano muito feliz do ponto de vista individual, este seja também um ano que revele toda a nossa capacidade coletiva de seguir no caminho certo.