DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM O MINHO NO CORAÇÃO

Não é o papel… é o pão!

Estes são dias estranhos e de sobressalto. Dias que parecem ficcionais, mas de um medo muito concreto, tão concreto que parece acionar em muitos o lado negro que nos insta à sobrevivência. Fingindo calma, mas inquietos por dentro, de semblante carregado a prenunciar uma qualquer má resposta a quem se lhes atravesse o caminho, fomos por estes dias figurantes de um insólito far west nos corredores dos hipermercados das nossas cidades. Falou-se e viu-se em vídeos que circularam abundantemente nas redes sociais, da caça aos rolos de papel higiénico. Contudo, todos sabemos, até quem açambarcou dúzias de rolos de papel higiénico, que o mais importante é o pão, o alimento. De um modo dramático, inesperado, vemos como a Agricultura é Vital! A letra capital no adjetivo não é gralha, mas uma escolha deliberada pela qual sublinho a intrínseca relação da Agricultura com a nossa sobrevivência.

E damos por nós a rezar, a desejar com fervor que nada de mal aconteça aos nossos agricultores. Desejamos que os frutos e legumes frescos, o leite, a carne, os ovos, o pão, tudo o que nos sustenta e que nos habituamos a ver numa abundância banalizadora, continuem a aparecer como que por milagre nas bancas dos mercados e das lojas.

Percebemos que há setores absolutamente essenciais para o funcionamento de uma sociedade, mesmo em tempo de guerra, ou melhor, sobretudo em tempo de guerra. Os serviços de saúde, os setores energéticos, os setores de transportes e de distribuição, o setor de produção e transformação alimentar. Há outros, claro, seja o setor da investigação científica (sobretudo na área da saúde) seja o das telecomunicações. Algo inimaginável aliás em outras épocas, os serviços que facilitam hoje o teletrabalho, as reuniões e o ensino à distancia, tornaram-se também eles essenciais no contexto de uma sociedade assente na conexão. Somos um gigantesco mundo de sinapses possibilitadas pelas tecnologias de informação. Mas, é a necessidade de alimento que emerge do modo mais categórico e premente possível.

Dos agricultores esperamos que não adoeçam, que não façam quarentena, que não se confinem às suas casas. E ainda que apoio da inovação tecnológica seja cada vez mais visível na agricultura, são ainda os braços humanos que realizam a maior parte das tarefas fundamentais ao cultivo. Dito de outro modo, aos agricultores não é dada a possibilidade de teletrabalho.

Por tudo isto, o apoio aos agricultores assume-se tão estratégico como o apoio aos serviços de saúde ou à investigação cientifica no domínio da saúde. Vejo assim com agrado o anúncio feito pelo Governo português de um pacote de medidas excecionais dedicadas ao setor agrícola (disponíveis no site do Ministério da Agricultura). São nove medidas, nas quais se incluem a elegibilidade para reembolso de despesas decorrentes de iniciativas previstas em projetos aprovados pelo Portugal 2020 que sejam canceladas/adiadas em virtude do COVID-19, o aumento imediato em 50 milhões (para 300 milhões de euros) do plafond destinado à linha de seguro de crédito à exportação, o acesso à linha de crédito Capitalizar 2018 | COVID-19 destinada a fazer face às necessidades de fundo de maneio e de tesouraria entre outras medidas.

Será também preciso manter a vigilância sobre a evolução da situação económica do sector de forma a garantir a sua sustentabilidade e a do abastecimento alimentar. Para tal, o também agora constituído grupo para acompanhamento do funcionamento da cadeia de abastecimento alimentar será uma ferramenta importante.

Afirmar, pois, como por estes dias li e ouvi, que nada está a ser feito pelo setor agrícola não corresponde à verdade. Diferente, porém, será afirmar que tudo está feito. Pelo contrário, importará que surjam mais medidas também a nível europeu, de apoio aos agricultores de modo a assegurar a continuidade vital do seu trabalho.

Às janelas, aplaudamos também aqueles que tudo fazem para que no dia seguinte não estejamos reduzidos a latas de atum vazias acompanhadas de rolos de papel.