DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM CORAÇÃO

Joseph Ratzinger ou o poder da humildade

Portugal cumpre hoje dia de luto nacional pela morte de Bento XVI. O Papa Emérito partiu com 95 anos, ao cabo de uma longa vida dedicada à Igreja e à fé, uma inquebrantável fé em Cristo que mesmo os não-crentes reconhecem como de admirável coerência.

 

Nascido no seio de uma modesta família alemã, a 16 de Abril de 1927 em Marktl am Inn, segundo de três irmãos (Georg e Maria), Joseph Ratzinger já conquistou, mesmo se a sua humildade nunca consentisse em o reclamar, um lugar na história universal da Igreja Católica, ao ser o primeiro papa a abdicar do cargo desde que Gregório XII o fez, corria então o ano de 1415 em pleno Cisma do Ocidente.

 

 

Para os que duvidavam da humildade de Bento XVI, preferindo intensificar o seu olhar sobre aspetos menores e mundanos como os relativos às suas indumentárias oficiais, a sua renúncia em fevereiro de 2013 veio certamente mostrar que não era a vaidade nem a sede de poder que comandavam a razão e o coração deste homem. Mas longe de mim escrever como se soubesse quais as reais forças que moviam o seu espírito. Faço apenas menção de um facto que me parece absolutamente extraordinário, na medida em que renunciar ao cargo máximo de chefe da Igreja Católica revela uma invulgar lucidez e coragem.
Lucidez desde logo pelo reconhecimento dos seus limites físicos. Para além do inexorável peso da idade, eram conhecidos os seus problemas cardíacos e outros que já na década de 90 teriam afetado consideravelmente a sua saúde, em particular a sua visão.

 

 

Mas também coragem pelo reconhecimento dos limites impostos pela coerência do seu espírito pensador. Um verdadeiro pensador é antes de mais coerente e fiel à incessante inquietação do seu espírito, inquietação que o leva a indagar, a analisar, a refletir. Ora, Joseph Ratzinger terá sido um grande teólogo, mas não se deixou tolher pela vaidade que o teria ironicamente transformado de grande teórico em mero doutrinador e dogmatizador contemporâneo. Pelo contrário, terá sentido que a sua vocação era ser tão só esse “mestre da catequese” como lhe chamou esta semana o Papa Francisco e por isso, quando sentiu que deveria sair de cena, saiu de cena. E há de facto qualquer coisa de poético num homem que escrevia a lápis, em letra pequena, como se não temesse que o seu pensamento passasse e se desvanecesse, como se não fizesse questão de deixar marca… E, contudo, tal como quando escrevemos a lápis, as marcas das palavras ficam não apenas na folha escrita, mas nas outras sobre as quais a folha principal se estendeu. São marcas que permanecem, mesmo para lá do tempo da grafite quando ela se esbate e desaparece.

 

 

Se as marcas de Bento XVI sobre o papel da Igreja serão boas ou más, não o sei dizer nem poderia ter essa pretensão. Sei sim que, por estes dias, há uma espécie de afã em enaltecer a sua figura. Ora, eu também não sei se tudo o que escreveu enquanto teólogo, se tudo o que ensinou enquanto académico e se tudo o que fez enquanto Papa, serão assim tão defensáveis. Por outro lado, se hoje há os que têm o afã de o enaltecer, também há os que persistem em o denegrir. Talvez porque todo o seu conservadorismo, a sua ortodoxia em matéria de organização eclesiástica, em matéria de sexualidade e de celibato, a sua rejeição da teologia da libertação, entre tantas outras questões, facilitem a tentação de rejeitar a sua figura. Mas uma coisa sei: Bento XVI não se impôs, não sucumbiu ao orgulho de querer impor a sua visão do mundo e da fé e isso é, só por si, um ato admirável.

 

 

Podemos discordar da sua visão, do modo como interpretava qual deveria ser o papel dos homens e das mulheres dentro da Igreja, e qual deveria ser o papel da Igreja no mundo e no devir desse mundo. Mas no fim, o que ficou foi a folha escrita a lápis. E com ela, ficou a liberdade para se guardar o que se deseja que perdure.

 

 

Porque esta é a minha primeira crónica de 2023 no Correio do Minho, tomo a oportunidade para desejar a todos os nossos leitores um ano generoso em tudo o que mais desejam e necessitam. E sobretudo que este seja um ano de retorno da Paz à Ucrânia e a todos os lugares das Terra ainda submersos em guerra e sofrimento.