DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM O MINHO NO CORAÇÃO

Democraticidade e desigualdade do COVID-19

No livro de Cormac McCarthy, A Estrada, entre cinzas, incêndios, chuvas ácidas, noites sem fim que se estendem como mortalhas sobre os dias de luz imperceptível entre a absoluta desolação de cuja origem o narrador nunca fala, um homem e um rapaz, cujas únicas identidades é serem pai e filho, fazem uma longa estrada rumo a um Sul. Nessa estrada, os encontros com outros homens são escassos, perigosos e potencialmente letais, enquanto o encontro com a Humanidade só muito pontualmente se vislumbra, concretizando-se apenas nas derradeiras páginas na obra. Até lá, a única Humanidade é a deles, pai e filho. Vemo-la nos seus parcos diálogos, próprios de quem vai desaprendendo a falar por ausência do mundo a que pertenciam as palavras que ainda têm na memória. Estão na mente, mas vão-se esbatendo sem a presença dos objetos, das paisagens, dos sentimentos, dos quotidianos que lhes relembrem o seu sentido. Mas é sobretudo num gesto recorrente, que no livro vislumbramos a silhueta esfumada da Humanidade: o abraço. O pai abraça amiúde o seu filho, para o proteger, para o consolar, para o acalmar, para o aquecer nas noites gélidas, para lhe dar uma réstia de esperança. O abraço é nesta obra de McCarthy o último reduto de Amor e de Esperança. Estranha e irónica mensagem esta, num tempo em que a nossa maior expressão de Amor, por estes dias, é não abraçar. Custa e custa muito. Mas tem de ser.

 

Tanta tecnologia, ciência, ganância, vaidade, pressa, certezas, e de repente, isto. Obrigados a parar, reconhecemos a nossa imensa fragilidade. Afinal, não podemos tudo. Uma senhora em entrevistada algures no norte de Portugal, avança num misto de resignação e de pragmatismo: “o vírus é assim, muito democrático”. Vejamos então a democraticidade do bicho. Parece que sim, que é democrático, sem olhar a religiões, etnias, nacionalidades, géneros, idades, ou condições sociais. Mas, pergunto, como chegou até nós? Foram os refugiados que o trouxeram? Ou os migrantes pobres da África Sub-sahariana? Foram os pobres, os sem-abrigo, os prisioneiros? Foram os desempregados ou os que apenas levam os salários mínimos para casa? Foram os velhos que habitam os lares? Não. O vírus chegou primeiro por via dos que nas sociedades podem viajar, seja por lazer, seja por negócio. Não é uma acusação. De maneira alguma! É uma constatação. E só não a reconhece, quem não quer ver que o vírus, mais do que democrático, é desigualitário.

 

O COVID-19 vem de cima para baixo, e é ao chegar às franjas da sociedade que revela todo o seu apetite pelo caos e pela morte. Dizia uma amiga francesa, já em idade de risco: “não poder viajar, não poder fazer férias, não poder ir aos restaurantes… vá nada de drama, porque isso é a vida dos pobres nos 365 dias do ano.” Muitos de nós estamos na parte de cima, mas seja por pudor ou por qualquer outro sentimento, não o admitimos. Não nos vemos como afortunados, nem como privilegiados, até porque na maior parte dos casos, viajar para outros países, por exemplo, nem é assim tão prazenteiro, é uma necessidade básica para a nossa empresa, para o nosso trabalho académico, para a nossa função numa instituição europeia. Faz parte da vida, não é um luxo. Certo. Mas olhemos um bocadinho mais em redor. Quem vemos? Todos os outros que já aqui enunciei. E vemos que o vírus na sua mortífera democraticidade, expõe afinal uma das pechas  mais gritantes das nossas sociedades: a desigualdade social e económica. É aqui que se revela uma das maiores falhas da Europa e dos seus Estados. Porque, não haja dúvida, na crise económica, que tal tempestade de areia já se vislumbra bem alta no horizonte, os mais subterrados serão os que já hoje estão entre os mais pobres, os mais precários, os que menos oportunidades encontram. Para alguns leitores, a tentação será desde já a de culpar os governos, os Estados, as instituições europeias, pela falta de solidariedade que está na base destas desigualdades. Lá irei, pois não estão de facto isentos de culpas. Mas, antes de lá chegar em outros textos, pensemos no que cada um de nós faz pela Solidariedade enquanto valor matricial na construção do Bem Comum, aquele que agrega o interesse e bem estar de todos. Não me refiro ao que fazemos em tempos de crise, quando todos nos sentimos compelidos a atos de bondade, de generosidade e de entre-ajuda, mas sim no tempo anterior, quando temos como garantida a normalidade das nossas vidas, e tudo parece ‘business as usual’.

 

É só o Estado que falha? O que é que faz pela Solidariedade aquele empresário que, em tempos ditos “normais”, não se importa com a precariedade dos seus trabalhadores? O que fazem pela Solidariedade aqueles grandes municípios urbanos que, assentes na prosperidade do comércio e da indústria, tantas vezes passam ao largo do atrofiamento dos municípios rurais seus vizinhos? Quem se questiona em tempos ditos “normais” se as crianças mais pobres da escola dos seus filhos têm internet e computador em casa? Que sabemos ou que queremos saber sobre os trabalhadores de call centers; dos filhos e dos domingo dos trabalhadores de hipermercados e centros comerciais;  dos que vivem a recibo; dos bolseiros; dos trabalhadores agrícolas; dos que vivem em lares clandestinos; dos velhos que ainda têm de trabalhar para se sustentar a si e aos seus; dos migrantes; dos que enfim ninguém quer ver? Nos tempos ditos ‘normais’, que valor damos afinal aos abraços? Se de uma crise como a que hoje vivemos não retirarmos respostas válidas e permanentes a estas perguntas, então teremos aprendido muito pouco, ou quase nada.