DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM O MINHO NO CORAÇÃO

Como se escreve o silêncio perante a perplexidade?

Pela janela da varanda, vejo as minhas primeiras andorinhas desta estranha primavera. Pedalo numa velha pedaleira que resgatei aos despojos outrora úteis e que vou guardando na garagem, na hesitação típica de quem adia decidir sobre o destino a dar a objetos de sentido perdido.

Contemplo duas andorinhas desenhando circuitos no ar. Primeiro vejo-os como erráticos, mas ao cabo de alguns minutos os olhos passam a dar-lhes outro sentido, o de uma dança ou um jogo feliz. Depois, tal como aparecem, desaparecem por alguns instantes nos beirais do prédio cinzento que avisto do outro lado da estrada.

Desse outro lado, existem alguns pequenos espaços verdes com meia dúzia de carvalhos de jardim. Neles avisto cães a passear com os seus donos. Passeiam muito, os cães da minha cidade. Têm donos muito amigos, que continuamente os levam à rua. São cães muito felizes. Nunca terão sido aliás tão felizes. Às vezes, suspeito que se sintam já um pouco cansados, mas os donos são amigos e insistem que eles façam exercício; e os cães, estoicamente fiéis e obedientes, fazem-lhes o gosto, não dizem que não, e lá se lançam em mais uma passeata. São felizes. E os dias de sol têm sido um capricho que convida a sair.

Termino a pedaleira. Aborrece-me. A casa está um brinco, e hoje não há videoconferências, nem teletrabalho. Pode parecer bizarro, mas estando há 15 dias dentro de casa, continuo a ter a clara separação entre dias da semana e fins de semana. O estar em casa não é sinónimo de menos trabalho, isso é certo. É apenas uma forma diferente de trabalhar, já muitos o sabem. Adiante…

Vou ao outro lado da casa. O meu filho quer terminar os trabalhos de português. É a sua forma de procurar uma normalidade interrompida há duas semanas, não se sabe por quanto mais tempo. Olho pela janela do seu quarto. Há gente a limpar varandas e a lavar janelas, a sacudir tapetes, lençóis, cobertores, ouve-se o som de aspiradores…

Estamos todos, ou melhor, quase todos dentro das nossas casas. Dou por mim a pensar na razão porque o fazemos. Porque nos mandam? Porque de repente todos achamos que seria normal abdicar das nossas liberdades individuais? Porque não temos uma verdadeira cultura democrática? Ou porque, tendo-a, estamos subitamente tolhidos pelo medo?

Não. Estamos em casa por solidariedade e humanidade. Queremos a Vida. A nossa, a dos nossos e a de todos. A Vida dos velhos, que são pais e avós dos meus vizinhos que, do outro lado da minha janela, se afadigam em limpezas ou saem em curtos e repetidos passeios com os seus cães. Queremos a Vida dos mais velhos da nossa sociedade. Sabemos que são periclitantes folhinhas de outono, na iminência de num qualquer dia se desprenderem em definitivo dos seus ramos, mas agimos como se fossem perenes porque, no fundo de cada um de nós, é esse o nosso desejo. Queremos sempre a eternidade para os nossos pais, para os nossos avós, para aqueles que amamos, e não nos custa imaginar esse mesmo amor pelos seus, no coração de quem não conhecemos. E é nesse instante que o amor pelos nossos, se torna em ética na relação com os outros.

Ficar em casa por estes dias é um ato de amor e um ato de ética, de verdadeira cidadania, de respeito pelos outros, muito em especial pelos mais frágeis de entre nós.

Há quem assuma atos mais pungentes, mais dramáticos, muito mais corajosos do que este ato de ficar em casa. A eles lhes devemos em boa verdade, a continuidade da Vida nestes dias estranhos e difíceis. Falo dos médicos, enfermeiros, auxiliares de saúde, de todos os que saem de casa para fazer qualquer coisa mais importante do que simples corridas higiénicas; para fazerem autênticas maratonas diárias a bem de toda a comunidade. Continuando com a prestação de apoio aos domicílios, com a produção de pão, com o transporte de bens agrícolas, de medicamentos, com a limpeza e recolha de resíduos das nossas ruas… São tantos… Cada um, como dizia o Papa Francisco, a um tempo frágil, insignificante e, todavia, tão importante. Imprescindível mesmo, nesta luta.

Estava tentada a dizer que tudo isto que aqui escrevo, é uma grande banalidade, a verificação do óbvio. Quando, de repente, uma amiga minha, residente em Bruxelas, me envia o link para um artigo do jornal espanhol El Confidencial. O artigo intitula-se, em tradução livre, “Filosofia holandesa perante a covid-19: ‘Levar os mais velhos a morrer nos hospitais é desumano’”. Logo no início do texto, pode ler-se: “Alguns especialistas holandeses acreditam que o colapso hospitalar em Espanha e na Itália se deve à ‘posição dos idosos’ na sua cultura: salvá-los a qualquer preço.” O que, segundo as fontes citadas no mesmo artigo, é desumano para com os idosos: o mais certo, lê-se, é que eles venham a morrer no hospital, que apenas lhes pode dar alguns cuidados paliativos, e tudo porque insistimos culturalmente em salvar os mais velhos.

Então, para essas fontes holandesas que o artigo cita, o nosso amor pelos mais velhos não passa de uma atitude culturalmente construída? E a nossa preocupação em salvá-los é uma irracionalidade que põe em causa a sustentabilidade dos serviços de saúde e a consequente possibilidade de tratarem de pessoas com maior expectativa de vida? É isto? Li bem?…

Não sei se os holandeses pensam mesmo isto. Se todos pensarão realmente isto. Mas, ao que parece, pelo menos para alguns (como os que o artigo do jornal espanhol cita, e, atrevo-me a dizer, para outros mais que não serão holandeses), o nosso amor é, afinal, desamor; e o nosso sofrimento é um sofrimento auto-infligido e irracional…

Quero escrever ‘silêncio’, porque não tenho mais palavras. Como se escreve o silêncio? O silêncio que fazemos quando não há palavras que, ditas, traduzam melhor a perplexidade e a tristeza que sentimos perante algo que acabamos de ler?

Mas há uma irónica utilidade na leitura destas visões que tresandam a arrogância etnocêntrica sobre as culturas europeias do Sul: é o facto de nos ajudarem a perceber melhor outras leituras, feitas mais ao nível político, e que por estes dias têm saído da boca de políticos holandeses.