DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM CORAÇÃO

“A vontade política também é uma fonte renovável”

Com a chuva que vai caindo, de modo particularmente generoso no Norte de Portugal, pode parecer estranho o que de seguida vou escrever, mas este Outubro foi o mais quente da Europa, em média com 2Cº acima do período de referência de 1991-2020. Quem o afirma é o Copernicus, o programa europeu de observação da Terra que integra serviços de monitorização das mudanças climáticas. E a Ciência, tal como o algodão, não engana. De acordo ainda com o Copernicus, apenas em algumas Ilhas Gregas e na Islândia se verificou um outubro mais frio do que o habitual.

 

 

Entretanto, na cidade egípcia de Sharm el-Sheikh, decorre entre 6 e 18 de novembro mais uma Conferência das Nações Unidas sobre o Clima. A vigésima sétima. E naturalmente que milhões de pessoas em todo o mundo se questionam ‘quantas mais conferências sobre o clima serão necessárias para que mudemos de rumo?’.

 

Uma mega-cimeira, que reúne milhares de delegados de todo o mundo, ONGs, governantes e atores políticos de quase 200 países, equipas de imprensa, segurança, é um evento que só por si já se reveste de um enorme impacto ambiental. E a imagem não melhora se lhe adicionarmos o facto de decorrer num país que levanta, no mínimo, diversas reticências em matéria de liberdades individuais e de respeito pelos Direitos Humanos (vejam-se os relatos que a imprensa nacional e internacional nos tem feito chegar sobre a ausência de manifestações nas ruas, seja em torno das questões climáticas, seja em torno de outras questões, a contrastar com o que seria normal no contexto de liberdade de expressão e de manifestação de qualquer regime democrático).

 

 

Como cereja no topo do bolo, um dos seus maiores patrocinadores da COP 27 é uma famosa marca de refrigerantes (o que em si não é novidade, uma vez que em COPs anteriores também houve patrocínios polémicos como os da indústria automóvel). Falo daquela marca que, como disse Pessoa, ´primeiro estranha-se, depois entranha-se’ e que no caso parece mesmo entranhar-se na pele do planeta, ao ser responsável pela produção anual de 3,2 milhões de toneladas de embalagens de plástico. Naturalmente que a marca Coca-Cola também pode contra-argumentar dizendo que só em 2021 desenvolveu mais de 900 protótipos de novas embalagens feitas de plástico ‘vegetal’. Mas são esforços pouco convincentes, vistos mais como ações de marketing e de ‘greenwashing’ do que como tentativas genuínas de travar a sua dependência de materiais derivados de combustíveis fósseis.
Assim visto, a COP 27 parece ser só mais uma cimeira cuja história será a de não fazer história. Contudo, uma tónica tão negativa também arrisca deitar fora o bebé com a água do banho, ignorando ver as notas positivas que estão igualmente a emergir desta Cimeira.

 

Uma nota muito positiva que me parece merecer todo o destaque, está desde logo no compromisso do recém-eleito Presidente Lula da Silva em recolocar nas prioridades de ação do Brasil a luta contra a crise climática e a defesa da Amazónia. Isso mesmo será certamente dito por Lula nos dias da sua presença na cimeira, entre 17 e 18 de novembro, e sem dúvida que esse é um compromisso que faz respirar de alívio todo o nosso planeta!

 

 

Depois de 4 anos absolutamente catastróficos (só entre 2019 e 2022, foram destruídos 40 mil Km2 da floresta Amazónica, uma área equivalente ao tamanho da Suíça), depois 4 anos de retrocesso ambiental (diria mesmo civilizacional, pois a gestão desenfreadamente gananciosa e destrutiva da Amazónia sob o governo de Bolsonaro, não deixa de ser em si mesma uma questão de atentado civilizacional, na medida em que colocou em causa o futuro de um Bem Comum da Humanidade), o compromisso de Lula, futuro Presidente do Brasil, traz uma nova esperança, que tem por sua vez razões fundamentadas atendendo ao histórico dos dois mandatos presidenciais de Lula da Silva em matéria ambiental.

 

Julgo também que importa fazer justiça aos esforços que pelo menos alguns estados no mundo estão a desenvolver para nos colocar no bom caminho da sobrevivência e não no ‘caminho do inferno’ como disse António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. Entre esses Estados, está Portugal que, como bem relembrou o Primeiro-Ministro António Costa, “há mais de 15 anos iniciou a aposta nas energias renováveis” e “é um exemplo de como investir na transição nos garante que somos menos dependentes e mais seguros do ponto de vista energético”. As renováveis representam já hoje cerca de 60% da eletricidade consu- mida em Portugal, sendo o objetivo chegar aos 80% já em 2026.

 

É preciso pois que caminhos como aquele que Portugal tem percorrido, se multipliquem e expandam a todo o mundo. Não se trata de um postulado de capricho ideológico, mas um postulado de mera sobrevivência, já que se nada fizermos ou se fizermos pouco no combate às alterações climáticas, nada ou pouco estaremos a fazer para travar o impacto colossal que estas têm sobre a disponibilidade de água, a biodiversidade, o desempenho da produção agrícola, ou a produção de energia. Por conseguinte, pouco ou nada estaremos também a fazer para combater a fome e a insegurança alimentar, as deslocações forçadas de refugiados climáticos, a instabilidade social e política que pode decorrer das fomes e das migrações forçadas, a destruição irreversível de ecossistemas, etc, etc…

 

O imperativo continua a ser o de agir, de intensificar a ação transformadora que conta já com bons exemplos um pouco por todo o mundo. E é desses bons exemplos que também temos de saber retirar o alento e a esperança. Como Al Gore sublinhou no seu discurso: ‘Estamos nas primeiras etapas de uma revolução da sustentabilidade que tem a magnitude da revolução industrial e a velocidade da revolução digital.’ Portanto, nada está perdido. Assim haja vontade política para prosseguir o caminho desta nova revolução. E para os que temem que a vontade política afinal seja pouca ou se esgote, recordo aqui o que me pareceu uma expressão feliz de Al Gore quando afirmou que ‘a vontade política também é uma fonte renovável.’