DEPUTADA AO PARLAMENTO EUROPEU

EUROPA COM O MINHO NO CORAÇÃO

A herança tóxica de Donald Trump

 

Numa recente reunião que tive com observadores internacionais às eleições norte-americanas do passado dia 03 de Novembro, no âmbito da agenda de trabalho da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações entre a União Europeia e os Estados Unidos da qual sou membro, os mesmos observadores foram unânimes em esclarecer que não houve qualquer prova de fraude sistémica no decurso dos atos eleitorais. Atos que, segundo eles, decorreram com grande normalidade, apenas pontuados por pequenos incidentes perfeitamente localizados. Os observadores dão por sua vez nota muito negativa à desinformação que corre nas redes sociais, e que contribuem para gerar confusão entre os cidadãos norte-americanos, muitos deles já com enorme défice de conhecimento sobre o real funcionamento do seu sistema eleitoral, e sobre as leis dos seus próprios estados em matéria eleitoral.

A nova presidência norte americana emerge assim num cenário truculento e tenso de que não há memória na história eleitoral do país, mas que era já mais do que expectável em face da narrativa de temor e ameaça que Donald Trump foi alimentando nos últimos meses em torno de uma possível derrota. Aliás, o discurso de derrota de Trump começou a ser feito em minha opinião a partir do momento em que lançou a possibilidade de não deixar facilmente a Casa Branca em caso de derrota. O discurso negativista é em política muitas vezes fatal, não tanto ou apenas por ser negativista, mas porque a sua própria existência acaba por reforçar a visualização do cenário ou ideia que se pretende combater.

Tal como um personagem operático que, ferido de morte, consegue ainda assim cantar por largos minutos até por fim ‘jazer’ em palco, os processos judiciais em curso para contestação das eleições são exemplo desse longo estertor dramatizado a que teremos de assistir. Os republicanos, por seu turno, irão alimentá-lo enquanto houver a possibilidade de reforçar a posição no Senado. Mas também eles terão de começar a pensar em responder à séria crise de liderança que os mina e como a poderão vencer se não quiserem permanecer reféns da presença corrosiva e tóxica de Donald Trump.

Trump acabará por sair, mas não sairá sem estragos, nem sem deixar herança. A América e o Mundo mudaram muito nos últimos quatros anos, não apenas por causa de Trump, é verdade, mas certamente também por causa de Trump. Se não vejamos. Trump voltou as costas às questões ambientais; saiu do Acordo de Paris; apoiou a desflorestação da Amazónia; negou sistematicamente a existência de alterações climáticas e sobretudo, negou reconhecer o papel da atividade humana na degradação ambiental e na perda acelerada da biodiversidade. No campo das relações internacionais, o multilateralismo e as boas relações com as instituições internacionais também não foram o seu forte. Retirou-se da UNESCO (em boa verdade para não ter de pagar a dívida acumulada desde 2011, ano em que a presidência de Obama cancelou o financiamento, em protesto pelo facto de esta instituição ter admitido a Palestina como Estado pleno, sendo aliás a primeira instituição das Nações Unidas a fazê-lo).

Saiu da Organização Mundial de Saúde, não sem antes ridicularizar a estrutura e liderança da OMS durante todo o período de instalação da pandemia do COVID19. Ameaçou a estabilidade da NATO, sublinhando a firme intenção de reduzir substancialmente o seu financiamento, ameaçando com sanções comerciais os estados europeus ‘delinquentes’, nas suas próprias palavras, que não aumentassem o seu contribuo financeiro para a NATO, e acenando até com a possibilidade de retirada dos EUA da instituição. Acicatou a já tensa relação com a WTO (Organização Mundial do Comércio), ao invés de emergir como um líder de mediação num cenário de grande tensão (em que, diga-se, tanto democratas como republicanos deitaram demasiadas achas na fogueira), sem avaliar por isso o quão trágico seria para a imagem internacional dos EUA e para os seus interesses comerciais, a opção por uma saída unilateral. A Paz Global também não teve em Trump um aliado e dir-se-ia que aquela só por milagre sobreviveu (a verdade é que nenhum estado no mundo tem a capacidade bélica atual dos Estados Unidos, e isso também ajuda a explicar, por enquanto, esse ‘milagre’). Trump instaurou uma guerra comercial aberta com a China, atingindo com ela relações de quase pré-guerra fria. Transferiu a embaixada americana em Israel para a cidade de Jerusalém numa clara ameaça à frágil estabilidade da região com possíveis e severas repercussões na paz mundial. Iniciou um flirt descarado (entretanto meio adormecido) com a Coreia do Norte. Abandonou o Tratado Nuclear sobre mísseis de médio alcance que o seu país assinara com a Rússia em1987. E a lista de estragos poderia continuar.

Acima de tudo, Trump cavou ainda mais fundo as divisões religiosas, sociais, raciais, e económicas numa América que necessita urgentemente de se reconciliar consigo mesma.
Esta é a herança de Trump que Biden terá de gerir. Não será possível responder a tudo nem a todos, e muito menos em simultâneo. Há que estabelecer prioridades.
A capacidade de conter o vírus e de prosseguir com a reabilitação da economia onde ela está mais debilitada, serão desafios decisivos para a sobrevivência política de Biden, dentro e fora do Partido Democrata, dentro e fora da América. O resto do mundo terá de esperar. A Europa terá de esperar. A pioridade máxima e imediata de Biden terá de estar na recuperação anímica dos EUA, com mais de 10 milhões de infetados e quase 250 mil mortos pelo novo coronavírus. A herança é de facto muito pesada e exigirá todas as forças que a nova presidência consiga reunir.